Will no-code eat the world? Um papo de Bruno Bannach (Jestor) e Guilherme Souza (Data²)

Canary
6 min readOct 19, 2021

--

E como a tecnologia pode transformar o modo como fazemos negócios

Há uma década, Marc Andreessen, cofundador da firma de venture capital a16z, escrevia a icônica frase “software is eating the world” em um artigo no The Wall Street Journal. Se hoje, cada vez mais, somos engolidos pela digitalização, um impasse fundamental tem atrasado esse processo: há uma carência de bons programadores pelo mundo, especialmente na América Latina. A oferta desses profissionais não supre a demanda.

Se o software deu conta de resolver problemas diversos para bilhões de pessoas de forma escalável, faltou escalar o software em si (nas palavras do Guilherme Souza, fundador da Data²). É nessa contradição que entra um movimento que tem potencial de mudar as regras do jogo, ou pelo menos torná-las mais simples: o no-code.

Plataformas no-code permitem a criação de aplicativos e ferramentas sem que se saiba necessariamente programar ou recorrer a códigos. E é uma tendência natural: lá em 2011, ainda era difícil fazer um site sem programação. Hoje, existem inúmeras soluções que possibilitam que qualquer pessoa coloque seu www no ar, sem dor de cabeça e com a cara que quiser.

Quando se olha para o dia a dia das empresas, a grosso modo, a tecnologia é capaz de fazer com que negócios de diversos segmentos automatizem e simplifiquem processos operacionais para focar apenas no que é core. E deixa o desenvolvedor mais livre também para o que é essencial.

LEIA TAMBÉM: Cibersegurança em startups: por que e como investir no early stage, com Rodrigo Jorge, da Neoway

Para entender melhor esse movimento, o Canary promoveu uma edição do Botecho (nosso papo de bar com tech people) sobre o assunto, com Bruno Bannach, cofundador da Jestor, e com o Gui Souza, fundador da Data², dois super entusiastas do no-code. Tanto Bruno quanto Gui estão por trás de startups que usam a tecnologia para trazer soluções mais simples e inteligentes para pessoas e empresas mundo afora. Separamos aqui 7 lições importantes do papo — e a conversa na íntegra está logo abaixo.

No-code é basicamente dar a qualquer pessoa o superpoder do programador

No-code tem muito a ver com liberdade. A proposta é que, através da tecnologia, uma vez que a pessoa entenda o que quer construir, consiga fazê-lo sem a necessidade de código. E isso não se limita a automações, mas se refere também à criação de interfaces, aplicativos e soluções do zero. É prover para um usuário comum a capacidade de um programador full-stack, capaz de colocar uma aplicação inteira no ar.

O low-code de hoje deve ser o no-code de amanhã

Aqui, cabe uma diferenciação: fala-se em no-code quando plataformas não exigem nenhum tipo de codificação; já em low-code, quando há uma necessidade mínima de código, de modo a facilitar bastante o trabalho do desenvolvedor.

Na prática, produtos que hoje resolvem problemas com pouco código, provavelmente o fazem porque a tecnologia ainda não foi desenvolvida o suficiente de modo que seja possível abandonar o recurso de vez. A tendência é que, em breve, eles virem no-code. Nesse caso, vale aqui a Navalha de Ockham: a solução mais simples é provavelmente a melhor.

No-code também pode ser core

É muito comum que se aplique e associe o no-code a atividades que não são core da empresa. Por exemplo, a Loft utiliza a tecnologia, com a plataforma da Jestor, para gerenciar as equipes de limpeza dos apartamentos. Fazer faxinas em imóveis não é o foco da Loft, mas a tarefa é parte das operações do dia a dia. E está tudo certo aí.

Contudo, no-code também pode estar no centro de uma empresa de tecnologia. Como ressaltou o Bruno, não é mais uma tecnologia que sirva apenas ao MVP. No-code tem hoje poder suficiente para ser o coração de um negócio.

No-code pode ser a melhor coisa que já aconteceu para devs

Muitos desenvolvedores podem olhar o movimento com maus olhos. Afinal, foram anos aprendendo a programar e criar códigos complexos. Há aqui uma barreira cultural, de aceitar uma solução diferente da que vem sendo proposta enfaticamente nos últimos anos nas formações tradicionais de programadores, contou o Gui. Mas vale abrir mão dos preconceitos aqui.

Um desenvolvedor com acesso a no-code pode ganhar muita eficiência e velocidade. A ideia é que seja muito mais simples fazer operações com a tecnologia. Além disso, o profissional fica livre para focar nos desafios mais relevantes para o negócio — e não perde tempo com detalhes, que, claro, também podem ser vitais, mas não precisam de tantos esforços da equipe de tecnologia. Nenhum desenvolvedor quer ficar programando e-mail marketing

Tecnologia já impacta dia a dia de profissionais e abre novos campos de trabalho

Hoje, dificilmente em uma startup há profissionais desconectados de tecnologia (não vamos nem entrar no mérito ‘trabalho remoto’ aqui, para não cair no óbvio). Os encarregados de Legal, por exemplo, precisam pensar em processos mais ágeis e automatizados, quase tanto quanto os de Operações, Produto e Tecnologia. Em diferentes áreas, profissionais precisarão de um background de tecnologia.

OUÇA TAMBÉM: Um guia para o trabalho remoto (ou distribuído) com Pier e Trybe

“A última coisa que vai se tornar obsoleta na humanidade é a capacidade de resolver problemas muito bem. Não interessa a ferramenta, o cara tem que resolver o problema”, defende o Bruno.

E o no-code ajuda a dar essa liberdade.

Além disso, muitas empresas estão contratando times só de no-code. A princípio, essas contratações têm servido para resolver problemas internos, mas em breve, podem começar a servir também ao core. “Pessoas que têm o conhecimento das regras de como o software deveria funcionar e de como os problemas deveriam ser solucionados vão escrever melhores softwares daqui para a frente, porque vão estar mais próximas da solução”, afirma o Gui.

No-code pode ser o diferencial para a sobrevivência de uma empresa

Se você lidera um time de tecnologia, fica um apelo: reflita sobre no-code sem preconceitos. Programar e codar softwares toma tempo — e a hora de trabalho dos devs é cara. Afinal, como dissemos acima, há poucos profissionais competentes no mercado. Soma-se a isso o fato de os modelos de negócios estarem mudando cada vez mais rápido, o que gera mais disparidade: é preciso correr com soluções tecnológicas para dar conta do business.

“Problemas que hoje podem ser resolvidos com no-code devem ser resolvidos com no-code. Não subutilize o tempo das pessoas. Isso é extremamente estratégico e vai ser diferencial competitivo com toda a certeza”, defende o Gui. “Sua empresa não vai conseguir se adaptar às mudanças de mercado e se manter relevante desenvolvendo software das maneiras tradicionais”.

Quais são os limites para a humanidade com no-code?

Um quote clichê, porém verdadeiro, de Albert Einstein: “o importante é não deixar de fazer perguntas”. Como muito bem pontuou o Gui na conversa, há uma barreira grande de acesso — e não podemos fechar os olhos para isso. São muitos os excluídos digitais globalmente (que dirá na América Latina). Mas, se com poucos desenvolvedores por aí, já somos engolidos por softwares, o que a humanidade poderá criar se mais e mais pessoas tiverem esse ‘superpoder’? Um potencial criativo enorme poderá ganhar vazão se mais gente abraçar o no-code e começar a testar novas formas de se expressar por meio de softwares.

Aqui, o nosso papo tech de bar ganha umas doses de filosofia (mas não são esses os melhores papos de bar?). Recomendamos fortemente que você assista na íntegra, com sua bebida de preferência:

--

--

Canary

Parceiro dos melhores founders na América Latina. Por aqui, compartilhamos os principais aprendizados de empreendedores(as) investidos(as) e de nossa rede.